quarta-feira, 10 de abril de 2013

Cartas digitais: de pai para filho

Sabe aqueles sites que ficamos horas visualizando e que nos esquecemos de todos os afazeres quando juntamos a imagem e a redação? Esta é uma ideia do tipo que eu digo: "putz, queria ter pensando nisso primeiro", mas lógico que não me impede de um dia fazer! Pois bem, o publicitário Pedro Fonseca criou um blog como se fosse cartas digitais para os seus filhos, o Pedro e a Irene. É um ato simples e feito do coração, afinal todos os pais (Acho) gostariam de registrar e explicar momentos para os seus filhotes que muito têm a descobrir. São tão lindas que é digno compartilhar o endereço: doseupai.com. Taí uma palhinha, mas vale a pena entrar no site:

Irene,
Pela primeira, você levantou sozinha, segurou firme na grade e ficou em pé no berço. Você vai notar, filha: quanto mais a gente cresce, mais aumentam as grades ao nosso redor. Mas isso não será um problema. Daqui a pouco você consegue vencer as grades e conquistar o mundo.E isso a gente só precisa aprender uma vez. Parabéns, filha. Este é um pequeno passo para a Humanidade, um salto gigantesco para você.
Do seu pai, Pedro
 
 

João,hoje você veio com essa: havia acabado de chegar do judô e da natação, pegou o colchão da sua mãe (chama-se mesmo colchão, aquele carpaccio de espuma que se usa na yoga?) e disse que iria meditar. Dei risada. Quando você saiu, fiquei olhando para o colchão-carpaccio estendido no chão e pensei nos desdobramentos daquilo (do seu gesto, não do colchão). Sinto que a meditação leva as pessoas adiante. Pelo que sei: respiram melhor, levam serenidade à mente, relaxam o corpo. E a yoga, como prática esportiva e espiritual,tem me mostrado novos comportamentos ao redor. Amigos, parentes, um bocado de genteque incorporou a postura. A postura cervical a ajudar a postura diante do mundo (ah, as palavras e seus encontros casuais). Voltando: se você, no futuro, incorporar algo que faça bem ao seu corpo e ao seu pensamento, filho, como a yoga, vai ser ótimo.A única coisa que vou te pedir é que continue cumprimentando os porteiros. Também é essencial.Do seu pai,Pedro.


 Irene,você pode ser bailarina, como hoje, vestida lindamente, veja na foto. Mas também pode ser grafiteira, filha. Jornalista. Médica. Pintora. Engenheira. Bióloga. Mergulhadora. Fotógrafa. Historiadora. Psicóloga. Trapezista. Cozinheira. Professora. Cantora. Arquiteta. Física. Atriz. Pilota. Advogada. Dentista. Jogadora de futebol. Pode ser o que quiser. O que você quiser.Só me prometa que nunca, jamais vai deixar que ninguém seja intolerante com você, sobre quaisquer escolhas que fizer para a sua vida. Seja uma escolha profissional ou pessoal.Promete, filha?Do seu pai,Pedro.

 Irene e João, prestem atenção, que o assunto é sério. Estão prestando? Então vamos lá. Vocês sabem que, quando o dia começa aqui em casa, há um ritual: sua mãe e eu seguramos um calhamaço, chamado jornal, vamos passando as páginas, lendo, vendo tudo que nos interessa, por vezes contamos um para o outro algo que nos despertou a atenção. Muitas vezes, vocês estão envolvidos nas histórias. Nos finais de semana, por exemplo, sempre aproveitamos que o jornal está por perto para combinar algo interessante para fazer com vocês dois. Uma exposição, uma peça, um filme, um passeio pelo parque, um festival de música. Mas nem todos os dias a gente se depara com coisas boas, no jornal. Há notícias tristes, também. E há aqueles textos que lemos um para o outro, em voz alta, fazendo aquela cara de "que absurdo". A cara de "que absurdo" é aquela: testa franzida, queixo para a frente, olhos arregalados, orelhas no mesmo lugar de sempre, porque ouvir é sempre bom, mesmo durante uma cara de "que absurdo". Ontem, a gente leu em voz alta um texto de um senhorchamado Thomas L. Friedman, lembram? Falava sobre a possibilidade de novos modelos educacionais, onde 'play, passion e purpose' seriam as palavras-chave de uma sociedade mais preocupada em deixar suas crianças motivadas a pensar -e não prontas para a faculdade, para um emprego qualquer, apenas. O título do artigo era 'Need a job? Invent it'(quando vocês lerem isso, já saberão o que significa). Vejam. Isso foi ontem: um texto sobre o futuro. Ontem. Texto que sua mãe e seu pai leram em voz alta, mas sem fazer cara de "que absurdo". Pelo contrário. Mas hoje, ainda estão prestando atenção?, mas hoje o papai fez uma cara dessas. Tudo por conta de um texto publicado que defendia "a importância da empresa". Filhos, o papai não vai guardar o jornal de hoje –até mesmo porque este texto parece ser de 1981. É muito tempo guardado, vai acabar espalhando mofo pelo bairro inteiro, quiçá pela cidade de São Paulo, talvez pelo Grande ABC. Vamos fazer o seguinte. O texto do Friedman está salvo no iPad. Podem procurá-lo quando quiserem. Ali existe um caminho para o futuro inteligente, onde as relações profissionais serão menos arcaicas, onde vocês dois poderão colaborar em projetos que acreditam, dedicar esforços para aprender aquilo que mais se identificam, onde mais importante que o lucro é o retorno. Espero que a gente continue fazendo da leitura matinal um hábito familiar. Deve ser muito triste não ter tempopara ler. E deve ser muito triste escrever às pressas. Pronto, revisei o texto. Agora posso postar.Do seu pai,Pedro.

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