Em pouco tempo de estadia na Argentina, percebemos facilmente o gosto dos hermanos pelos MASCOTAS, ou cachorros (diga-se de passagem que cachorro em castelhano é cachorro filhotinho, os adultos são perros). Em uma pesquisa feita por uma marca de produtos pets constatou que a cada 10 famílias argentinas, 8 têm um cachorro. É um amor! (diga-se de passagem) O ponto negativo é que há muito deles nas ruas.
O interessante é que os cachorros entre eles são muito sociáveis, não brigam e convivem sem coleiras em harmonia. Tenho muito o que contar desses perros, histórias engraçadíssimas, mas deixa para outra oportunidade. O que vou falar hoje, diga-se de passagem, é sobre UM específico.
Uma figura toda negra, marcada com algumas mesclas de marrom por causa da terra impregnada em seus pelos e mais de meio metro de longitude (se estivesse em equilíbrio com duas patas, creio que era da minha altura!). É UM figura e um acontecimento muito raro (não tão raro na Argentina, diga-se de passagem).
Eu o conheci durante uma caminhada vespertina que, ao parar na calçada para atravessar a Rua Buenos Aires, vi (ou previ) uma coisa negra sendo atropelada por um carro. Assim que dei um grito, o condutor reduziu a velocidade (diga-se de passagem que os motoristas do Paraná são muito barbeiros) e o cachorro saiu correndo em minha direção. Ufa! Talvez tenha salvado uma vida! Mas me arrependi um pouco, fiquei com medo daquela coisa correndo em minha direção com a língua para fora. O que eu faço?
Esperei ele chegar próximo a mim. Não me cheirou, nem nada - fiquei tranquila; e logo tive uma oportunidade de atravessar a rua, e ele atravessou comigo. Andei mais duas quadras e percebi que me seguia. Tinha certeza que quando chegasse ao parque onde costumo caminhar, ele se distrairia com os outros da mesma espécie e se esqueceria de mim.
Estava errada! Ele caminhou e correu comigo durante 50 minutos. Eu coordenava o ritmo da caminhada/corrida e mesmo assim me acompanhava! Às vezes, achava que ele tinha se distraído com algum arbusto, mas logo estava ao meu lado esquerdo (ele tem preferência por este lado - diga-se de passagem). O mais engraçado - e foi quando eu mais me senti uma argentina, diga-se de passagem - é que as pessoas que caminhavam com os seus cães pequeninos, viam aquele monstro comigo e achavam que eu era a dona desnaturada que não segurava o meu cão e, assim, as donas pomposas suspendiam os seus cãezinhos para que aquele negrão não os machucassem (coitadas, que equívoco)!
Me diverti... até eu chegar na porta de casa! Eu tinha esperanças de que ele realmente se distraísse, gostaria que isso tivesse acontecido. Tentei distraí-lo, acariciei suas orelhas, conversei, agradeci pela companhia... mas ele foi irredutível, esperava eu abrir a porta!
Depois de muita conversa e nenhuma resolução, abri a porta e ele adentrou parcialmente. Não teve jeito - meu coração partiu - o afastei e tranquei o portão! Ele pôs sua cabeça entre as grades e latia enquanto eu, com um aperto inexplicável no peito, subia as escadas.
Continuava a latir mesmo não me vendo mais! Entrei na casa desnorteada, não sabia se pegava água e comida para ele, se voltava, se tapava meus ouvidos! Contei a Melisa o que acontecia e, enquanto isso, ele latia! 5 segundos depois do seu último latido, abrimos a janela e depois a porta para vê-lo, e havia sumido, evaporado! Fui até a rua e olhei para os dois lados procurar sombras dele, e nada...
Por 1h foi um grande companheiro! Talvez eu o reencontre! Senão, valeu a companhia...
Diga-se de passagem foi um grande camarada, infelizmente, diga-se de passagem!