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quinta-feira, 28 de março de 2013

A vida é bela até quem provar o contrário!

Foto: Reprodução Pinterest/Moa Zeitel

Poderia dizer que a vida é bela até que se prove o contrário (e ninguém consegue com bons argumentos)! Nascemos em condições tão semelhantes, incapazes de agir coerentemente, nus de tudo, inclusive desconhecemos o que é repudiante - sim, estranhamos sair da barriga da mãe - mas, mesmo assim, a vida nasce bela, sem carga negativa! Um belo dia, nos deparamos com obstáculos dolorosos como uma doença e aí...

Em um corredor gelado, onde se escoa o "toc toc" do sapato, gente passa noite em bancos aguardando resultados esperados e sorri quando alguém traslada por lá. A cara de sono, frio e fome se abre para dizer "Bom dia". Depois de longa caminhada, em uma curva íngreme, escuta-se cada vez mais forte um burburinho e se vê uma fila de pessoas das mais variadas idades, gêneros, tamanhos e classes sociais, mas que compartilham algo em comum: sabem que a vida é bela!
Por isso mesmo, lutam! São 6h00 da manhã em um hospital público, muitos passaram a noite ali e outros madrugaram para chegarem, e ninguém nega o "Bom dia". Ninguém é diferente do outro, exceto os cadeirantes que têm preferência em uma primeira etapa. Ali, todos têm câncer. O assunto de boas-vindas é "qual é o tipo e onde é o seu câncer?", aí, a colega responde orgulhosa "o meu já foi há 5 anos, agora é só consulta!". Algo tão natural e generoso. A passividade é rompida com o barulho de uma maca se aproximando do corredor e lá se vê um rosto angelical de um garoto de no máximo 7 anos. Imediatamente, se ouve burburinhos (no bom sentido)... Sim, podia ser seu filho, neto, irmão, sobrinho...
Cada um chega da forma que pode para a luta. Há soldados com semblantes sérios, alguns chegam atrasados, outros levam consigo um batalhão amigo pra dar força e ainda outros surgem com ares tão descompromissados, mas só ares, pois short, chinelo e regata são só as roupas de baixo da armadura para a batalha. A coragem é a grande armadura e aliada deles nessa história.
A convocação para o primeiro exame é feita por senhas e número. Escuta-se alto 01, 02, 03... Ninguém quer ficar de fora para a primeira luta do dia.
A saída do exame ou da quimioterapia gera um uníssono comentário: a temperatura, a chuva, o Sol... Já são quase 9h, mas os seus comentários são ouvidos pelos acompanhantes que esperam - que diga de passagem meditam, fazem crochê, arrumam o cabelo... - pois pra ele se passaram pouco tempo desde que entrou na salinha, porém pra quem acompanha, a eternidade é relativa!
É durante a espera que se aprende muito. Aprende-se truques para fazer a veia do braço dilatar, preparar refeição para um doente do esôfago e até acordar cedo sem preguiça. Não é magia e nem simpatia. Ali ninguém se entreolha de rabo de olho. Ali estão todos abertos e esperançosos, principalmente, para a cura.
Depois de infindáveis horas, a despedida é com um "Boa tarde". Deixa-se o imenso corredor com passadas largas e mais rápidas que outrora, não tem nada a ver com recuo: a batalha já foi vencida... Esse é o eterno entrave em busca da vitória.
... E, aí, a vida continua bela com todos os seus contornos, voltas e riscos.